| Folha
de São Paulo
- O Kraftwerk se considera mais do que um grupo pop? |
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Ralf Hutter - Sim. Somos operários musicais.
Inventamos a semana de 168 horas, não há separação entre trabalho e tempo
livre. Há tantas coisas a fazer: música, programar computadores, imagens,
filmes, letras, palavras, discursos, entrevistas, viagens, esportes... |
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Folha
- O que mais
o interessa? |
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Ralf Hutter - A vida cotidiana. |
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Folha
- Na Alemanha?
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| Ralf
Hutter - Sim, só podemos falar do nosso dia-a-dia, ou seja,
predominantemente o contexto industrial alemão em Düsseldorf, Colônia.
Mas também estamos perto da fronteira, área pan-européia. |
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Folha
- Nesse momento a Alemanha passa por mudanças políticas. |
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Ralf Hutter - Sim, mas isso é só administração.
Acho que não tem nada a ver com arte, música ou pensamento. Quem se importa
com o governo? Não acho que burocratas possam influenciar a cultura. |
| Folha
- E quem pode? |
| Ralf
Hutter
- Bem, as pessoas fazem cultura, os cineastas, os escritores,
os matemáticos, os cientistas, os artistas. Essas são as pessoas interessantes,
não os burocratas. |
| Folha
- E o cotidiano? |
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Ralf
Hutter - As invenções influenciam a vida cotidiana, como o gravador,
a câmera digital, o sintetizador. Há cem anos, para criar um grande som,
era preciso uma centena de pessoas, então era necessário um rei ou um rico
empreendedor industrial. Hoje, com um computador e caixas de som, há todo
um novo princípio de criação autônoma, que transforma os governos e a burocracia
em redundantes. E com a Internet e outros canais de comunicação, há diferentes
autonomias de discurso. |
| Folha
- O que acha do "faça-você-mesmo" com os computadores na música?
E do resultado? |
| Ralf
Hutter - É como havíamos previsto nos anos 70. Éramos a primeira
geração do pós-guerra na Alemanha, quando não apenas as casas foram bombardeadas,
mas havia uma desorientação na cultura alemã. Mas foi uma grande oportunidade,
porque começamos do zero, não havia tradição contínua. Tínhamos essa idéia
de criar a "Elektronikevolksmusik", como o Volkswagen, algo popular. Agora
está em todo lugar, no mainstream. Aconteceu. |
| Folha
- Em 1977, você disse que "todo mundo busca o transe na vida,
e as máquinas produzem um transe absolutamente perfeito". Continua achando?
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| Ralf
Hutter - Sim. Nós tocamos as máquinas e algumas vezes elas nos
tocam, é um diálogo. Kraftwerk é o homem-máquina. Algumas pessoas atingem
o transe com a exaustão física, tomando drogas ou 20 xícaras de café. Nós
o fazemos pela música. |
| Folha
- Há uma hierarquia na música eletrônica? |
| Ralf
Hutter - Não. Algumas vezes, na música, o fator humano é superestimado.
E com o Kraftwerk nós levamos o fator mecânico ao mesmo nível, à igualdade.
Se você trata suas máquinas musicais da mesma forma que seus amigos ou a
si mesmo, achará um feedback positivo. |
| Folha
- Primeiro foi o mecânico, o carro, o trem, depois o computador,
agora há a Internet. A música antecipa estes estágios ou os retrata? |
| Ralf
Hutter - Algumas vezes ela é simultânea, mas a música pode ser
muito visionária. |
| Folha
- O que é visionário hoje? |
| Ralf
Hutter - Nosso próximo disco. |
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