No coração do nightclub londrino Rage, nas primeiras horas do fim de semana,
o principal tecno-teutônico do mundo balança discretamente de um pé para
o outro. Seu rosto exibe um sorriso de contentamento enorme e justificável.
Ralf Hütter - que, junto com Florian Schneider, compõem o Kraftwerk
- ouve a música que ele passou mais de vinte anos polindo, refletida no
ambiente metálico do Rage, e isso o agrada infinitamente. "Você sabe!",
ele grita, inclinando-se para o meu ouvido e gesticulando na direção dos
monitores de vídeo com sua luz trêmula e dos dançarinos que em transe ignoram
tudo à sua volta. "Se, há vinte anos, estivessem fazendo um filme sobre
o inferno, teriam imaginado algo assim". Ele provavelmente está certo. Se
alguém sabe desse tipo de coisa é Ralf Hutter. "Fazíamos coisas assim no
começo", continua. "E um crítico escreveu que Kraftwerk era a morte da música".
Não demorou muito para as pessoas se deixarem cativar pelo som do Kraftwerk,
mas ninguém naquela época poderia prever a extensão de sua influência sobre
o futuro da música pop. Surgidos no reinado "cabelos compridos, bocas de
sino e purpurina" do glam rock, eles apareceram de terno, cabelos curtos
e cara limpa para se tornar o grupo branco mais influente na história da
dance music, e precipitar uma revisão radical do status de pop star. Todos
aqueles heróis da guitarra dos anos 70, destruidores de hotéis e colecionadores
de mulheres, que riam da visão kraftwerkiana de músicos "robóticos" - trabalhadores
livres de ego na fábrica do som -, deveriam dar uma olhadinha nas paradas
dos anos 90, cheias como estão de músicos anônimos, cujas roupas e opiniões
importam muito menos para o público do que os ritmos e texturas martelados
pelo equipamento eletrônico. O culto à personalidade pode sobreviver em
algumas vizinhanças, mas isso não tem nada a ver com o Kraftwerk, que, já
há dez anos, não deixam ninguém tirar suas fotos. "Gostamos de ser tão auto-suficientes
em relação ao nosso visual quantos somos com a nossa música", Ralf explica.
"E, de qualquer jeito, posar é um grande tédio para nós. Nossos robôs são
muito melhores nisso, eles têm mais paciência". |
Para quem
é a engrenagem central no grupo mais impiedosamente moderno do pop, Ralf
Hutter é uma figura inesperadamente suave e - em meio à hipnose hardcore
do Rage - bizarra. Magro, de aparência saudável em seus quarenta e poucos
anos, ele veste um terno de listras finas em preto e branco. As ondulações
de sua echarpe de seda preta separam sua camisa Nehru preta de seu pescoço,
e o cabelo bem penteado, com estrias grisalhas, cobre uma cabeça que parece
estar eternamente sorrindo. Um charme quase prosaico, bem pouco tecno. Isso
não quer dizer que ele não tenha uma queda pelo hardcore. Um outro nightclub
que visitamos mais tarde, na mesma noite, é brando demais para seu gosto.
"Me sinto com se estivesse na Itália ou na Alemanha", resmunga, "com todas
essas pessoas balançando as mãos no ar. É tão, tão suave. Eu me lembro de
uma energia muito mais delinqüente em Londres". Ralf está em Londres para
quebrar o sólido silêncio do grupo em relação à imprensa, proclamando o
retorno do Kraftwerk à vida pública. Em julho passaram pela Grã-Bretanha,
como parte de sua primeira turnê mundial em dez anos, precedida pelo lançamento
de The Mix, um álbum duplo de clássicos radicalmente regravados,
abrangendo a obra do Kraftwerk nos últimos quinze anos. |
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New
Musical Express
- Uma fabulosa
atualização do repertório do grupo, The Mix cria um ótima desculpa para
se falar do passado, mas uma compilação não seria um gesto estranhamente
retrô para quem sempre esteve olhando para a frente? |
| Ralf
Hütter - Estávamos trabalhando nas faixas para sua execução
ao vivo, gerando sons digitais e sampleando nossas velhas fitas multipistas,
quando decidimos colocar tudo num disco. Por isso não são remixes, são gravações
completamente novas. |
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New
Musical Express
- Vocês pularam clássicos atmosféricos como "The Hall of Mirrors" e "Neon
Lights", favorecendo grooves dançantes, mas as pessoas se surpreenderão
com a ausência de "The Model", o compacto que fez de vocês a primeira banda
alemã a chegar ao topo das paradas britânicas... |
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Ralf Hütter - Trabalhamos apenas
com as faixas que combinavam. Talvez daqui a dois anos façamos outro disco
como esse, e aí poderemos incluir "The Model" de uma forma totalmente diferente.
Escolhemos as faixas que saltaram nas nossas caras. Não havia nenhuma lógica,
exceto o fato de cobrirem o período entre Autobahn e hoje. Não colocamos
nada dos três primeiros álbuns, porque desde Autobahn não tocamos esse material
ao vivo. |
| New
Musical Express
- O que podemos esperar do show?
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| Ralf
Hütter
- Traremos nosso estúdio Kling Klang, mais efeitos visuais.
Teremos filmes e computação gráfica, além de nossos robôs articulados. Eles
aparecem durante a canção "The Robots" e fazem um balé mecânico com perfeita
sincronia, pois estão todos ligados ao mesmo computador. Todos os audiovisuais
são baseados nas canções, mas muito mais desenvolvidos do que os da última
turnê, em 81. |
| New
Musical Express
- O show pode variar de uma noite para a outra? |
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Ralf
Hütter - Sim. Podemos sempre brincar com os computadores,
chamar os programas e alterá-los, dependendo do clima do momento. Hoje em
dia o equipamento musical está chegando perto do que sempre tivemos em mente
quando começamos. Antes havia limitações técnicas. Também substituímos nossos
percussionistas, Karl Bartos e Wolfgang Flur, por um engenheiro eletrônico
que sempre trabalha conosco no estúdio e um músico adicional. Por isso temos
agora mais som, mais eletrônica, mais programação e mais engenharia de som
acontecendo. |
| New
Musical Express - Assim como "Trans
Europe Express" foi seu melhor single e "The Man Machine" seu
melhor álbum, "The Mix" é o melhor ponto de entrada para principiantes
em Kraftwerk. Mas, enquanto seu estilo e suas atividades pareciam extremamente
radicais - comparados ao que os outros estavam fazendo - hoje eles foram
adotados pelo mainstream. Seus métodos viraram lugar-comum. Vocês
se sentem confortáveis com isso? |
| Ralf
Hütter - Como poderíamos mudar agora? Gastamos vinte anos
neste tipo de trabalho. Não podemos dizer amanhã que o negócio é voltar
a usar violões. Para nós é muito estimulante ver a popularidade do tipo
de música em que pusemos tanto esforço. Quando prevíamos que nossos aparelhinhos
eletrônicos iam acontecer com tudo, ninguém acreditava na gente. |
O
que o Kraftwerk realmente significa é algo que só foi totalmente compreendido
no contexto da cultura alemã, mas, mesmo destituída de significado e simbolismo,
sua música exibe uma pureza sonora nunca igualada. É uma turbina reluzente,
limpa de bagagem sentimental ou floreios pomposos, sua tecnologia descarada
nunca oculta por trás de cautelosos e confortadores painéis de madeira metafóricos.
Um dos segredos do som do grupo é que eles costumavam se infiltrar nas maiores
companhias de computadores e estimular seus pesquisadores com o desafio
criativo de conceber e adaptar equipamento especialmente para o Kraftwerk
- aparelho em que, obviamente, ninguém mais podia pôr as mãos. Seus ritmos
e texturas únicos, combinados a melodias eternas, assim como a execução
imaculada de uma ideologia realmente radical, reapareceram desmembrados
e fora de contexto como tema recorrente em cada cenário dance regional dos
negros americanos na última década. |
| New
Musical Express
- Levando em conta sua aura de "caretice" - rigidez até, mesmo
para um banda de brancos - isto não surpreende ou diverte, Ralf? |
| Ralf
Hütter - É difícil dizer, vem acontecendo há tanto tempo,
desde "Trans Europe Express". Lembro que estávamos uma vez, naquela época,
num club em Nova York, e o DJ tinha prensado seu próprio disco, utilizando
nossas fitas de 'Metal on Metal', mas estendendo-se mais e mais. Era o começo
dessa coisa de DJs fazerem seus próprios discos e ficamos fascinados." |
| New
Musical Express
- Vocês têm consciência dos discos que são influenciados por
vocês? |
| Ralf
Hütter - Nos clubes, sim, porque costumo sair para dançar.
Vou aos clubs em Düsseldorf, Frankfurt, Paris ou onde quer que passemos
quando viajamos. Passamos por fases, não é tão rígido assim. Não é possível
sair cinco noites por semana na Alemanha, é preciso trabalhar, mas eu vou
dançar mais ou menos uma vez por semana para manter as pernas em forma. |
| New
Musical Express
- Você sabe de quem são esses discos? |
| Ralf
Hütter - Na maioria das vezes, não. Reconheço os sons, mas
geralmente os discos são indefinidos. Obviamente conheço coisas como 'Trouble
Funk Express', 'Planet Rock' e o cenário tecno de Detroit. |
| New
Musical Express
- Que tipo de música vocês escutam? |
| Ralf
Hütter - Não temos escutado muita música ultimamente, tentamos
reduzir os estímulos externos para evitar um excesso de exposição. O alemão
médio ouve cinco horas de rádio por dia, enquanto nós ouvimos nenhuma. Gosto
de sair perambulando e ouvir a música que o ambiente oferece ao acaso, saindo
de uma caixa acústica num café ou num night club. Não ouço música em casa,
eu faço música no estúdio. |
| New
Musical Express
- O que você faz quando não está trabalhando com música no
Kling Klang? |
| Ralf
Hütter - Fazemos música o tempo todo, aí dormimos. É um
trabalho de período integral. |
O Kraftwerk nasceu
quando Ralf Hutter conheceu Florian Schneider num curso de improvisação
musical no conservatório de Düsseldorf em 68. Em 74, após três álbuns de
música eletrônica instrumental sem estrutura muito definida, arrombaram
a banca com "Autobahn", uma majestosa celebração em 22 minutos do ato de
passear de carro pelas estradas, que incluía, pela primeira vez, letras.
Se sua música inicial era composta de poemas tonais inspirados pelos sons
ambientais do parque industrial de Düsseldorf, "Autobahn" fundia ruídos
de carros tratados eletronicamente, uma melodia clássica e o ritmo mecânico
formado por barulho de tráfego sintetizado para criar uma nova música folclórica
industrial. "Autobahn" foi um hit nas dicotecas americanas e o Kraftwerk
se tornou objeto de apadrinhamento em grande escala por parte de David Bowie,
que mais tarde incorporou elementos do visual e da iluminação do grupo.
"Isso foi muito importante para nós porque estabeleceu um elo entre o que
estávamos fazendo e o mainstream do rock. Bowie costumava dizer a todo mundo
que éramos seu grupo favorito, e, no meio da década de 70, a imprensa se
apoiava nas palavras dele como se fossem os dez mandamentos. Nós o conhecemos
quando ele se apresentou em Düsseldorf, em uma de suas primeiras turnês
européias. Ele viajava de Mercedes, escutando 'Autobahn' o tempo todo, não
ouvia nada além disso. |
Se a aparência do grupo e o fato de cantarem em alemão (quando 75% do material
executado na rádio alemã era cantado em inglês) já eram esquisitos, seus
temas soavam ainda mais deslocados na Alemanha dos anos 70. No momento em
que nascia o Partido Verde, eles celebravam a rede de autopistas com que
Hitler havia desfigurado o campo. Quando todo alemão pensante estava paranóico
sobre as carteiras de identidade e o computador central da polícia em Plenzdorf,
eles estavam abraçando e festejando o mundo computadorizado. Eram gestos
radicais dentro da Alemanha, sem nenhum sentido fora dela. "Isso faz sentido
em outros países", protesta Ralf. "Conversei com pessoas da França ou da
Itália que têm uma compreensão quase idêntica". As traduções das letras
para o inglês certamente não funcionam. Não só os originais em alemão soam
mais poéticos como carregam diferentes ressonâncias culturais. A necessidade
da rima força nuances de sentido completamente diferentes, assim uma canção
como "The Model" - captada em toda sua ironia no alemão - no inglês acaba
soando como rabiscos simplistas de uma criança de cinco anos. "Isso é difícil
de julgar para mim, mas recebemos muitas respostas e reações em toda parte,
por isso acho que estamos nos comunicando." |
| New
Musical Express
- As pessoas costumavam dizer que havia apenas três grupos
que entendiam a música eletrônica: vocês, a Yellow Magic Orchestra e o Yello.
Você sentiu alguma vez afinidade com estes grupos? |
| Ralf
Hütter - Certamente havia esse sentimento. Encontramos com
o pessoal da Yellow Magic Orchestra quando tocamos em Tóquio, mas não conhecemos
muito bem a música deles, nunca me tocou realmente. Me parecia muito mais
piadista, meio para o jazz rock. O novo estilo de Detroit me parece muito
mais próximo do nosso enfoque, hipnótico, engrenado. |
| New
Musical Express
- Como na base rítmica composta de sons de respiração em "Tour
de France", o uso de sons ambientais pelo Kraftwerk é sempre adequado. Vocês
não vão atrás de samples maluquetes - arrancar fita adesiva
de uma mesa, bater com uma vara num balão, etc. - mas falaram uma vez em
gravar o som das estrelas, a energia liberada pelos pulsars (fontes radioestelares
emissoras de impulsos que têm a duração média de 35 milionésimos de segundo
e se repetem a intervalos extremamente regulares, de cerca de 1,4 segundo).
Chegaram alguma vez a fazer isso? |
| Ralf
Hütter - Não, mas sei que existem fitas disso. Nós não temos.
Não quero falar demais e dar fatos errados, mas sei que quatro anos atrás
alguém traduziu essas ondas em freqüências e então botou um computador para
tocá-las. Há até outro computador trabalhando sobre as escalas e harmonias,
traduzindo as ondas para o equipamento eletrônico, e o som é bem legal.
Não é um tom constante, muda o tempo todo. |
| New
Musical Express
- Depois da guerra, houve um vácuo cultural na Alemanha durante
cerca de vinte anos, quando os jovens - envergonhados de sua herança - rejeitaram
sua cultura e passaram a se mirar na Inglaterra e nos EUA. A sua emergência,
junto com gente como Faust, Can, Tangerine Dream e Giorgio Moroder sinalizaram
uma revitalização da cultura popular alemã, que continuou com a Neue Deutsche
Welle ("Nova Onda Alemã") no começo dos 80. Como está o cenário hoje em
dia? |
| Ralf
Hütter - Bem quieto. Também estamos atravessando mais um
período morto no cinema, e não tenho absolutamente nenhuma idéia por quê.
Não há nenhuma razão óbvia. Com a queda do Muro, era de se esperar uma verdadeira
explosão de atividade. |
| New
Musical Express
- Você diria que a sua música continua etnicamente alemã,
que não poderia ter saído de nenhum outro lugar? |
| Ralf
Hütter - Ela se tornou uma linguagem mais internacional,
mas ainda acho que é bem alemã. Talvez isso soe um pouco nacionalista -
digamos que seja européia em sentimento, isto sim, definitivamente. Se você
colocasse uma banda americana em nosso estúdio e pedisse a eles para fazer
um disco sobre a Tour de France (competição ciclística realizada na França
que inspirou a música homônimas do Kraftwerk), o resultado seria diferente. |
| New
Musical Express
- Como grupo, vocês sempre preferiram olhar para o futuro
ao invés do passado. A idéia do futuro ainda o excita? |
| Ralf
Hütter - Sim. Nem mais, nem menos do que antes. É uma coisa
constante. Estamos sempre pensando no que estamos trabalhando, nos shows
que estamos preparando, por isso não temos tempo de pensar no passado. O
futuro, em termos de possibilidades não realizadas, é algo que sai deste
processo. |
| New
Musical Express
- Eu estava pensando no futuro em termos mais amplos, gerais...
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| Ralf
Hütter - Você quer dizer em relação à sociedade? É claro
que penso nisso, e meus sentimentos são ambivalentes. Estou preocupado com
o que os alemães chamam de 'Fernsteuerung' da sociedade, controle remoto,
ditadura das massas. Não falo daquele sistema clássico de um homem controlando
todos, como uma figura paterna, porque acho que isso não existe mais. Acho
que há algo em forma de massa, como avalanches, que têm sua própria dinâmica
e que poucas pessoas entendem. Coisas como eleições não fazem sentido. O
fato de 99% das pessoas votarem em algo não diz nada sobre a qualidade do
que estão votando, e este tipo de ditadura demográfica... Ainda é cedo demais
em minha mente, mas deverei compor música sobre isso. Há um culto ao apelo
de massa que eu não compartilho. Como ter quarenta estações de rádio, todas
tocando as mesmas 'Quarenta Mais'. Ninguém fala do controle exercido sobre
o que aparece na televisão. Essas são as coisas em que penso, índices de
popularidade e ditadura demográfica, por que alguém deve ser presidente
só porque tantas pessoas votaram nesse boneco que faz poses? |
| New
Musical Express
- Existe algum plano a longo prazo para o Kraftwerk? Alguma
colaboração inesperada? |
| Ralf
Hütter - Não sei. Vamos ver só o que acontece quando tocarmos
em Detroit. Estamos numa situação bem aberta no momento e gosto muito disso.
É bem curioso. Estivemos conversando aqui sobre vinte anos de nosso passado
e havia me esquecido de certas coisas que eu talvez devesse repensar, mas
permaneço apaixonado sobre como entraremos na próxima etapa. Nunca perdia
um pouco do interesse. |
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| Interview
to Simon Witter - New Musical Express
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