De que galáxia vêm realmente esses primitivistas da era pós-computador?
De Düsseldorf ou de alguma zona de um tempo-espaço futuro? Mais ou menos
à altura do oitavo compasso de uma interpretação energética de "The Model"
- disponível numa fita cassete verde-limão editada pela Companhia Saha Kuang
de Discos e Fitas - a familiaridade é recortada em pedaços de maneira irreversível.
O andamento é desacelerado para 34 batidas por minuto, o órgão elétrico
volta poucas décadas atrás, algo entre um quase Kraftwerk, os Seeds ou os
Mysterians. Começa o vocal. A cantora veste uma blusa branca com partes
recobertas por pele de carneiro e uma gola de mandarim, uma saia branca,
um brinco preto e outro branco. Ela canta em tailandês. E a razão para esse
drástico transplante do Kraftwerk 78 na música pop tailandesa de 85 é pura
e simplesmente um mistério. Ralf Hütter veste um blusão de couro preto.
Quando o tira, aparece uma jaqueta preta. Camisa preta, gravata preta, calças
pretas, sapatos pretos. As meias são brancas. O cabelo, outrora todo preto,
agora está ficando cinza no topo. Atento, ele se inclina um pouco à frente
para ouvir melhor esta versão singular de sua música. "É muito bom", diz
ele, num inglês monossilábico e divertido. "Gosto disso. Deveríamos ir à
Tailândia". |
Kraftwerk:
a casa de força original, os condutores, os operadores, os fetichistas do
som. Durante aproximadamente uma década e meia, a banda vem criando música
de dança em Düsseldorf, permitindo às máquinas que falem por si mesmas.
"Me lembro que tocamos numa festa, num centro de artes qualquer de Düsseldorf,
em 71", diz Ralf. "No início, não éramos um grupo fixo e os bateristas viviam
sendo substituídos porque ficavam apenas batendo e não mexiam com a eletrônica.
'Não! Tire a mão dos meus instrumentos!' Um dia, tínhamos aquele show no
centro de artes e eu estava com aquela antiga bateria eletrônica. A certa
altura, deixamos o instrumento ligado com alguns ecos e um pouco de feedback,
descemos do palco e nos juntamos aos dançarinos. Continuou assim durante
uma hora ou mais." Kraftwerk é sexual, concentração pura, comestível. Auto-controle
com humor. Expressão através da proporção. Emoção através do distanciamento.
Inspiração através do trabalho. "As máquinas dançam, por assim dizer", diz
Ralf, "e a repetição, o ritmo vão se acumulando. Mas isto é uma ficção estética". |
Não há uma
diferença enorme entre o Kraftwerk de 'Trans Europe Express', em 1977, 'The
Man-Machine', em 1978, 'Computer World', em 1981, 'Tour de France', em 1983,
ou 'Eletric Cafe', em 1986. Com um classicismo devotado, a banda de Hütter,
Florian Schneider, Karl Bartos e Wolfgang Flür alinhou e realinhou
uma coleção em miniatura de melodias e pulsações. 'La Côte d'Azur et Saint
Tropez, les Alpes et les Pyrénées, de estação em estação, Düsseldorf City,
encontro com Iggy Pop e David Bowie, Negócios, Números, Dinheiro, Gente,
estou adicionando e subtraindo. Quando apertada, uma tecla especial toca
uma melodia singela, ein, zwei, drei, vier, fünf, sechs, sieben, acht, ichi,
ni, san, shi, amor de computador, disco este número para marcar um encontro.
O número que você discou foi desligado. Boing Boom Tschak, Boing Boom Tschak'.
O assunto principal é a filosofia. Porém, mais intensa é a obsessão pela
pureza dos sons. Como Fragornard pintado sobre cetim, Kraftwerk tempera
seu apetite pelo som a favor do que é contemporâneo, social e sutilmente
sugerido. "O som não os seduz do ponto de vista da forma?", pergunto. "Mm",
concorda Ralf. "Seu principal problema?", sugiro. "Não. Problema, não. Objetivo",
diz ele, "porque a forma não nos preocupa tanto assim". Será essa a razão
da forma "viajante"? "Autobahn", "Musique Non Stop", "Europe Endless", "Trans-Europe
Express", "Tour de France"... "Sim", concorda. "Deixa-se levar. Senta nos
trilhos e ch-ch-ch-ch-ch. Continua indo. Aumente e diminua o volume suavemente,
em vez de se mostrar dramático ou tentar implantar dentro da música uma
ordem lógica, o que parece ridículo. O fluxo é muito mais adequado. Em nossa
sociedade, tudo está em movimento. A eletricidade circula, através dos cabos,
e as pessoas - bio-unidades - viajam de cidade em cidade. A certa altura,
elas se encontram e então - pluwiit. Então, por que a música deveria permanecer
em compasso de espera? A música é uma forma de arte fluente". |
Isto é futurismo inócuo. O italiano Filippo Marinetti escreveu bem no início
do século: "A energia dos ventos distantes, as rebeliões do mar, transformadas
pelo homem em muitos milhões de quilowatts, irão penetrar em cada músculo,
artéria e nervo da península, sem precisar de ligações controladas por teclados
com uma abundância fertilizante que pulsa entre os dedos dos engenheiros".
Com seu jeito afetuosamente rebuscado, ele também sonhava em alta velocidade
imaginando o Danúbio correndo "em linha reta, a trezentos quilômetros por
hora", e antecipando a deificação dos heróis do esporte como Fangio ou Bernard
Hinault, e, ainda, antevendo a destruição de casas para dar lugar a estradas
e aeroportos. Da mesma forma que o Kraftwerk se apropriou da arte condenada
da poesia sonora ou fugiu da teoria para transmutar o metal básico da música
eletrônica alemã em ouro, o grupo utilizou com muito êxito as novas tecnologias
e as batizou no mainstream. "As sociedades industriais estão hoje no
mundo inteiro", diz Ralf. "O ideal", sugere ele, "é ter uma
presença artística, também. Não apenas grandes corporações, negócios, números,
dinheiro, gente, mas arte, música". Recorrendo às inovações ao mesmo tempo
profundas e triviais da proliferação tecnológica da sociedade, faz parte
dos seus objetivos criar uma nova volksmusic (música popular, em alemão).
|
Janeiro de 1984. Estou com Afrika Bambaataa. Sentamos perto do piano de
cauda, no estúdio Shakedown Sound, de Arthur Baker. "Tivemos que pagá-los",
admitirá Baker mais tarde - porque flagraram Bambaataa, Baker e o Soul Sonic
Force chupando "Numbers" e "Trans Europe Express" para fazer "Planet Rock".
O que Bambaataa sentiu quando "Trans Europe Express" foi lançado? Com uma
rara demonstração de entusiasmo, ele me conta, "eu disse, desculpe a expressão,
'isso é uma bosta esquisita'". A performance do Kraftwerk no Ritz de Nova
York, em 1981 tinha sido histórica. "Voltaram quatro vezes ao palco e o
público não queria deixá-los sair", disse Bambaataa. "É um grupo incrível
de ser ver - nem que seja pelos computadores, e tudo que conseguem tirar
deles. Eles pegaram algo como uma calculadora e acrescentaram outra coisa
nela - o pessoal apertando e tocando como se fosse música. Era funky". Isto
o levou a refletir sobre os objetos do dia-a-dia, como os telefones, sob
o ângulo de suas propriedades sonoras. Conto essa história a Ralf Hütter.
Ele sorri. "Fizemos isso mesmo. Não sou um musicólogo", diz ele, "mas acho
que a música negra é muito ambiental. Muito integrada ao estilo de vida.
Você pode fazer sua rotina..." Ele esfrega a mesa com força e sugere que
Kraftwerk também é bom para essa função. "Quando começamos", diz ele, "a
eletrônica era ligada tanto à pesquisa - universidade, gordos títulos acadêmicos
- quanto aos programas espaciais. Nosso negócio sempre foi incorporar o
dia-a-dia. Na capa de Autobahn está o meu velho Volkswagen cinza, e o disco
contém os sons e os barulhos existentes num raio de 200 a 1.000 quilômetros
de uma auto-estrada". Ele bipa o código do seu relógio digital de pulso
preto e ri. Até certo ponto, isto foi uma reação contra a cultura acadêmica
burguesa e a tirania da teoria. "Para nós, é algo que chamamos em alemão
de 'intellektual überbau'", diz Ralf. "Na seqüência, passamos
a discutir o conceito de 'überbau', a construção intelectual - tão vasta.
Para nós, nunca foi um problema. Somos filhos dos trenzinhos elétricos para
montar, dos pequenos 'elektrobaukaste'n - a geração do pós-guerra com suas
caixas de brinquedos em miniatura. Você se torna rapidamente infantil com
esse tipo de abordagem". |
Ralf Hütter e Florian Schneider se encontraram pela primeira vez num curso
de jazz e improvisação, organizado pelo Conservatório de Düsseldorf; Ralf,
com seu órgão elétrico, e Florian, com seus instrumentos de sopro elétricos
e seus aparelhos de eco. Eles eram membros do que Ralf descreve como "a
geração sem pais". "Nascemos depois da guerra", diz ele, "um fraco
incentivo para respeitar nossos pais. A herança germano-austríaca de Beethoven
e Mozart ainda tinha peso e o mundo pop do final dos anos sessenta também
era restritivo, à sua maneira", observa Ralf, "que nem Woodstock. Você era
obrigado a ver as coisas de um certo jeito. Tudo era muito estreito e pré-programado.
Passamos às escondidas pela porta proibida". Os dois tocaram em vernissages
de galerias de arte na região industrial da Ruhr - o circuito Colônia/Dortmund/Essen/Düsseldorf.
Por vezes, eles se juntaram ao movimento emergente do free jazz, a músicos
como Karlheinz Berger, Gunter Hampel e Peter Brötzmann. "Nunca fizemos compactos
de três minutos", conta Ralf, talvez sem necessidade. "A música era longa,
construtiva e vibrante". Eles também encontraram a vanguarda americana,
percorrendo um circuito semelhante ao das galerias de arte: LaMonte Young,
que construíra em 1969 um ambiente sonoro contínuo em osciladores de ondas
senoidais durante 13 dias, na galeria Heiner Friedrich, de Munique; ou Terry
Riley, o californiano místico cuja composição, "In C", repetitiva, enlouquecedora
e contagiante, estava chamando as atenções de muitos setores da música.
Puderam também ver Stockhausen em ação, em Colônia, executando ao vivo sua
própria obra. Naquele tempo, todos falavam de Música do Mundo (World Music).
Uma das exibições paralelas nos jogos olímpicos de Munique, por exemplo,
foi uma grande apresentação dedicada à influência da cultura exótica nas
artes contemporâneas. LaMonte Young numa sala, músicos gamelenses da corte
de Java numa outra, misturados com um pouco de esporte e o terrorismo internacional
como evento principal. Para Hütter e Schneider, a oportunidade de ver e
ouvir músicos da Ásia ou da África em ação os levou a formular perguntas
vitais. "Qual é a nossa cultura étnica?", diz Ralf. "Será que ela foi explodida?
Nós até incluímos barulhos de bombas na nossa música, certa vez. O que é
o nosso som? Qual é o nosso ambiente? Sou mudo?" |
No estúdio Kling Klang, de Düsseldorf, há despensas de tecnologia histórica;
Kraftwerk 70, Kraftwerk 75, Kraftwerk 81, Kraftwerk 87. "Nós o chamamos
de jardim eletrônico", diz Ralf, "coisas novas chegando, outras sendo
reconstruídas. O velho misturado ao novo, dependendo da fase. Fazemos uma
mistura quase que orgânica. Ainda estamos utilizando aquela antiga caixa
de ritmos para coquetel musical e, de repente, num outro extremo, temos
o Synclavier. Nosso instrumento é o estúdio. É o nosso pequeno laboratório,
nosso 'elektrospielzimmer'". De novo a discussão lingüística. "Sala
de brinquedos?", ele pergunta. Agora, Kraftwerk é uma fonte. Versões de
suas composições no Japão e na Tailândia, uma inspiração para o hip hop
do Bronx, versões em diversas línguas dos seus discos - como a edicão
espanhola de "Electric Cafe. Música do Mundo, pode crer. O que mais mudou?
,pergunto, ..."Com a memória digital, veio a liberdade de passar mais
tempo experimentando, sugere Ralf. O pós-computador é o novo primitivismo",
diz ele. "Outra mudança está na qualidade do som que agora pode ser
alcançada. Nos últimos cinco anos foi possível imprimir ou projetar mais
esculturas de baixa freqüência, o que não era possível antes. Tem sido simplesmente
um big boom... ou uma camisa-de-força", acrescenta, com um pouco de desgosto.
"É a arte da tecnologia de estúdio. Você pode esculpir o som de 20 até 20.000
hertz. A gente burilava um som específico durante uma enorme quantidade
de tempo. Com certos sons, somos fetichistas. Um faz kling e o outro acrescenta
um klang. Modelamos isso até o extremo." Sobre as vozes em "Boing Boom Tschak",
"Tecno-pop" e "Musique Non Stop", ele fala da presença espetacular que elas
têm. "Elas se mesclam. São como talking drums. Percussão. Mais ainda pode
ser feito. Me sinto como se estivéssemos apenas começando". Vocês escutam
outras músicas?, é a minha última pergunta. "Não", diz Ralf. "Talvez
quando passeamos por aí. Às vezes, quando saímos para dançar. Outras vezes,
no rádio. Não tenho aparelhagem de som em casa. Escutamos o silêncio. Escutamos
músicas fictícias em nossa mente. Pensamos música". |
|
| Interview
to David Top - Face Magazine
|
|